O Captain my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung for you the bugle trills,
For you bouquets and ribboned wreaths for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain My Captain - a poem by Walt Whitman
Quando somos crianças, fazemos coisas que ficam guardadas para sempre na memória. No meu caso, não consigo esquecer de uma brincadeira muito particular: eu pegava alguns objetos, como algum bonequinho velho, moedas de pouco valor, botões de camisa ou recortes de jornal, os fechava dentro de alguma lata, e enterrava no quintal. Era a minha cápsula do tempo, que algum dia no futuro seria aberta por alguém que não viveu a minha época. Aquelas coisinhas sem valor valeriam uma fortuna em um futuro distante, quando alguém as desenterrasse.
É claro que, como qualquer criança curiosa, eu mesmo cavava a terra depois de algumas semanas para ver como as coisas estavam. Aprendi que deveria usar materiais como plástico ou vidro para guardar os objetos. Uma garrafa de água mineral era perfeita, porque podia conservar qualquer tipo de coisa debaixo da terra – até mesmo papel.
Como minha família mudava-se muito, acabei deixando algumas cápsulas no único lugar em que elas deveriam realmente ficar: debaixo do solo e longe da minha tentação de desenterrá-las.
Cresci e, como todo mundo, acabei esquecendo a maioria dos meus sonhos de infância. Até mesmo das cápsulas do tempo. Só fui pensar nelas depois que meu próprio filho, com oito anos de idade, começou a enterrar seus brinquedos no quintal.
Eu fiquei atento para saber o que ele escolheria para ficar para a posterioridade, e meus olhos se encheram de lágrimas ao vê-lo pegando meu velho aparelho de barbear e colocando na caixa. Aquilo foi até então o momento que mais orgulho senti, mas ainda assim não interferi em sua brincadeira. Vi que ele escolheu atentamente um objeto de cada pessoa da casa. Além do que me representava, colocou uma fivela de cabelo da mãe e um soldadinho de plástico dele mesmo. Mas teria que aprender por conta própria que uma caixa de sapatos não suportaria a primeira chuva.
Algumas semanas depois meu filho já tinha feito a descoberta, porque também não resistiu à tentação de desenterrar para dar uma olhadinha nas coisas. Eu, sem falar nada a respeito, lhe dei uma garrafa plástica, “para brincar”, e ele entendeu o recado. Logo enterrou a garrafa bem tampada. Deve ter depositado objetos menores em seu interior, para que conseguissem entrar pelo gargalo apertado.
Naqueles dias eu recordei muito do meu tempo de criança, e tentei lembrar de algumas outras coisas que eu tinha enterrado. Sabia que tinha pelo menos uma carta que eu havia escrito para o alguém do futuro que viesse a achá-la. Só não conseguia lembrar o que eu havia escrito, nem em qual quintal enterrei, mas tinha certeza que havia feito.
Enfim, enquanto eu vivia aquela gostosa sensação de ver meu filho experimentar o que eu também tinha vivido na infância, as coisas estranhas começaram a acontecer.
Um dia ele estava no quintal, como de costume fazendo buracos com a pá, e gritou por mim. Ele estava irradiante e ao mesmo tempo assustado: tinha encontrado alguma coisa enterrada há muito tempo em nosso terreno.
A princípio achei que fosse uma brincadeira, e que ia me mostrar uma de suas próprias cápsulas. Ou então poderia ser qualquer coisa sem importância, pois era comum aos antigos enterrar o próprio lixo. Mas o que vi saindo da terra não era nada que eu já tivesse visto antes.
Fiquei dias ouvindo meu filho orgulhoso dizendo a todos que havia descoberto um tesouro. A princípio também me senti como ele, ao olhar aquele belo baú de madeira escura na minha escrivaninha, já devidamente limpo e lustrado, depois de ser arrancado imundo da terra. Não era grande como os que aparecem nos filmes de piratas – tinha cerca de trinta centímetros – mas emanava um mistério que o fazia parecer ser o maior do mundo.
Toda a minha vida passou diante dos meus olhos ao saber que alguém – provavelmente algum garoto – tinha tido a mesma idéia muito antes de mim, e que eu próprio tinha aberto uma cápsula muito mais antiga que a minha.
Meu filho perdeu o interesse pelo conteúdo quando soube que lá só havia papéis velhos. Porém, tive a certeza de que nada fazemos em vão. Era o meu destino abrir aquela caixa de Pandora, e eu não teria feito isso caso não influenciasse meu filho a brincar de enterrar coisas, e se não tivesse tantas boas lembranças sobre as que eu mesmo enterrei.
Meu mundo parou quando rompi a fechadura do baú e descobri ali uma espécie de diário de quem o enterrou. Era na verdade uma porção de folhas amareladas, amarradas com fio de lã através de um furo na lateral. Era o livro criado por uma criança. Uma espécie de diário feito à mão.
As páginas estavam um pouco borradas de tinta. Fiquei imaginando o menino mergulhando a pena no tinteiro para escrever com aquela sua caligrafia irregular. Li a primeira página com lágrimas nos olhos, lembrando da minha infância e imaginando a repercussão que poderia ter aquela fantástica descoberta.
“Meu nome é Ulisses, tenho doze anos e hoje é dia 27 de agosto de 1917”. A primeira frase já encheu meu coração de alegria. Ulisses era o nome do garoto. Naquele momento senti que nós dois nos daríamos muito bem. Mesmo sabendo que provavelmente ele já estava morto enquanto eu lia aquilo.
Continuei a ler: “Meu pai foi para a guerra e me deixou um presente. Ele disse que sempre que eu tivesse saudades dele, era para olhar para a pedra vermelha do medalhão. Nas primeiras vezes eu não vi nada. Mas depois descobri como fazer certo: eu tinha que lembrar de algum momento feliz que tive com ele, e o que eu pensava aparecia na pedra”.
Não poderia ter começado a leitura de forma mais sentimental. Imaginei o tal presente que o pai dera ao menino como sendo algum amuleto sem qualquer valor material ou místico. A memória do garoto é que o fazia ver os momentos felizes que teve junto ao pai. Logo, pensei comigo, ele descobriria que o medalhão não servia para nada, e que o verdadeiro significado do presente recebido estava nas lembranças que os dois teriam enquanto estivessem separados.
A leitura prosseguiu: “Quando consegui pela primeira vez, vi meu pai me carregando nos ombros. Foi engraçado porque eu não lembrava detalhes, como a calça marrom que ele usava, ou os meus sapatos desamarrados. Mas olhando o que aparecia na pedra preciosa do medalhão, pude perceber melhor essas coisas que tinha esquecido”.
Dei uma folheada para ver se o texto era extenso, e contei dezesseis folhas. Aquilo estava sendo mais interessante do que eu planejara. Aproveitei para dar boa noite à minha esposa e ao meu guri, e fui ler na sala, por que eu já sabia que não pegaria no sono enquanto não acabasse de ler tudo.
Estranhamente, nesse ponto, antes de ir para a sala e terminar a leitura, lembrei-me do nome do meu primeiro amor. Eu tinha feito um cartão para ela, onde escrevi alguns versinhos, e enterrei em alguma das minhas cápsulas. Nunca mais a vi depois que nos mudamos, e só naquele momento, depois de mais de trinta anos, fui me recordar dela. Talvez algum dia alguém encontre meus primeiros e últimos versos apaixonados que fiz para alguém que nunca os lerá.
Ulisses tinha escrito mais sobre outras memórias suas: “Uma vez eu segurei o medalhão bem apertado, e fiquei tentando lembrar o dia em que nasci. Olhei para a pedra vermelha e pude ver meu pai e avô orgulhosos olhando para minha mãe na cama, com um bebê no colo. Ela me embalava e estava sorrindo, com uma fita vermelha prendendo seu cabelo”.
“Um dia eu me concentrei no momento em que um pai tinha feito aquela enorme cicatriz na perna. Achei que não ia conseguir ver nada, porque isso tinha acontecido antes de eu nascer. Mas depois de um tempo, logo reconheci aquele menino caindo de uma árvore e começando a chorar de dor. Era meu pai aos treze anos...”.
Eu não queria mais parar de ler, mas aquilo estava mais parecendo uma história de ficção. Talvez fosse isso mesmo: apenas um conto fictício que alguém criou e resolveu enterrar. Eu guardava brinquedos nas minhas cápsulas. Outras pessoas poderiam guardar o que elas bem entendessem. Se os papéis não tivessem aquela cor e cheiro característicos, eu poderia duvidar que realmente datassem do ano anunciado.
“Um dia meu pai ficou um tempo muito grande sem escrever, e fiquei bem preocupado. Peguei o medalhão e tentei encontrá-lo. Pensei por um bom tempo em onde ele poderia estar, e por que tinha parado de mandar notícias. O que vi surgir na pedra vermelha me deu um aperto no coração: ele entrava em uma casa em chamas para salvar uma menina. Lá dentro, o fogo era muito forte, e ele acabava nunca mais saindo de lá. Soube depois de algumas semanas que ele tinha morrido exatamente daquele jeito.”.
O último parágrafo me fez estremecer no sofá da sala. Mesmo duvidando de que aquela história era real, o suspense me fez imaginar o poder que aquela jóia trazia ao menino. Era como ter um canal que mostrasse o que acontecia em qualquer hora, em qualquer lugar, mesmo que mais ninguém tivesse visto. Era uma verdadeira bola de cristal, aquilo.
Mas o mais impressionante vem a seguir.
“Quando vi que podia usar a pedra para saber o que acontecia em outros lugares, procurei imaginar o que seria de mim agora que estava sozinho. Me vi mais velho, vestido de soldado, como meu pai. Eu atirava com uma arma estranha, quando de repente um tiro me atingia. Eu caía no chão, procurando de onde vinham os tiros, mas ia sendo atingido mais e mais vezes, até fechar os olhos e não abrir mais.Depois disso guardei o amuleto e decidi nunca mais usá-lo, porque o que vi me assustou bastante”.
Eu só queria lembrar que a data em que esse texto foi escrito, teoricamente, é 1917. Como é possível que o menino visse a própria morte, possivelmente a uns vinte anos mais tarde, talvez na Segunda Guerra Mundial? Sim, só podia ser ficção.
Pela última frase, achei que o medalhão não participaria mais da vida do garoto, mas me enganei. Ele tinha uma ferramenta muito poderosa nas mãos, que podia ver o futuro. A partir daí começou a pensar nos anos que seguiriam e a anotar tudo o que via na pedra vermelha do amuleto mágico. Assim como o profeta Nostradamus, previu muita coisa que realmente aconteceu. A maior parte do conteúdo daqueles textos se referia a grandes acontecimentos históricos do século XX. Não havia menções a datas, locais ou nomes, mas pelos meus conhecimentos pude identificar a descrição da morte de Hitler e fim da guerra, o assassinato de John Kennedy, a chegada do homem à Lua. Quanto mais eu lia, mais os fatos descritos iam se aproximando da minha época, e foi me causando calafrios. Se aquilo fosse uma farsa, tinha sido montada há muito pouco tempo. Mas quem é que ia enterrar um baú antigo no meu quintal? Além disso, eu já morava nessa casa há mais de cinco anos, e nunca tinha sido enterrado nada naquele gramado, antes do meu filho começar com a brincadeira.
Continuei lendo as páginas restantes, suando frio com a possibilidade de alguma descoberta ainda mais surpreendente.
Na última página dos escritos, depois de eu ler descrições sucintas do que só poderia ser a queda do muro de Berlim e os atentados terroristas ao World Trade Center, fiquei ainda muito mais chocado.
“Um homem de olhos escuros e cabelos grisalhos vai encontrar esses papéis.” – esse homem era eu!!! A partir daqui, eu iria ler sobre meu futuro. E não seria nada animador. Uma revolta da natureza seria a responsável pela destruição da maior parte do planeta. Não havia nenhuma data ou local, mas não pude deixar de imaginar meu tempo sendo destruído por ondas gigantes, terremotos e furacões. Na minha mente, o mundo acabaria dentro de poucos dias. Talvez naquela mesma noite.
Em um ímpeto de fúria, juntei todas as folhas e as joguei na lareira. Minha família não gostaria de saber dessa história perturbadora. Mesmo que fosse brincadeira de mau gosto de alguém querendo me pregar uma peça, achei melhor acabar com tudo aquilo.
Com as páginas queimadas, chegou a vez de jogar aquela caixa de madeira que tinha trazido aquela baboseira para minha casa. A arremessei com força dentro da lareira, e ela se desfez em pedaços. Nisso, ouvi um som metálico e notei um brilho intenso vindo do fogo. Não pude crer, mas o torpor em que eu estava me fez rir, e puxei o medalhão para fora da lareira com a ajuda de um espeto.
Fiquei observando atentamente a jóia. Era muito linda, e pude finalmente descobrir como era a tal pedra vermelha onde o menino via as imagens do futuro. Na verdade era um rubi enorme, e ficava no centro de uma medalha de ouro com inscrições egípcias. Devia haver um fundo falso no baú, onde a rara peça estava oculta.
Olhei para as cinzas das páginas na lareira, e depois voltei meus olhos bem para o centro daquela gema enorme. Se ela fosse real como parecia, eu seria o homem mais poderoso do mundo, capaz de prever tudo, e seria disputado por todas as nações. Em troca disso, eu teria que conviver com a desgraça de saber a hora da minha morte, e também a da minha esposa e do meu filhinho. Isso seria ainda pior que saber qualquer coisa sobre o fim do mundo.
Olhei fixo para o amuleto, e me concentrei em mim mesmo. Havia muita coisa em jogo caso aparecesse alguma imagem na pedra. Olhei atentamente, sem enxergar nada além do brilho dos meus olhos refletidos o rubi.
Olhando bem no fundo da pedra, pude aos poucos notar alguma imagem se movendo. Tudo clareou diante de mim, como se uma tela de cinema aparecesse. O que eu vi foi a minha própria imagem, ainda menino, enterrando uma garrafa plástica com muitos brinquedinhos dentro. Eu enxerguei no amuleto a última cápsula que enterrei, junto com meus versinhos de amor. Pude ver perfeitamente o local onde havia enterrado, e logo soube que aquele tesouro da minha infância estava mais perto do que eu podia imaginar, conservado debaixo da terra. Procurei olhar o que aconteceria a seguir, e me vi na imagem que aparecia no rubi como adulto, voltando ao lugar onde morei quando criança e desenterrando a cápsula. Então eu lia a carta que havia escrito para o meu “eu”do futuro.
Sei que se eu começasse a pensar no meu futuro, ou no de toda a humanidade, acabaria tendo problemas. Não quis pensar em nada além daquilo, para o meu próprio bem. Mas quem resistiria àquela tentação?
Concentrei-me a pensar na minha família. Só queria saber se algum dia eles estariam em perigo, de modo que eu pudesse prevenir qualquer mal.
Um tremor percorreu meu corpo. A imagem que saía do talismã escureceu, e vi meu filho já adolescente, andando sozinho numa rua à noite. Um homem mascarado começa a segui-lo e o agarra pelas costas, para depois jogá-lo dentro do porta-malas de um carro. Meu filho acorda assustado em um banheiro imundo, amordaçado e com as mãos presas por correntes.
O homem mascarado me telefona para acertar o preço do resgate.
Eu apareço sozinho no local – uma fábrica abandonada - levando uma bolsa com o dinheiro. O homem me agarra e me tranca amarrado em uma despensa.
Consigo me livrar das amarras e procuro algum objeto que sirva de arma. Por sorte, encontro uma motosserra. Puxo a corda e ela engasga, engasga outra vez, mas logo começa a funcionar. Serro a porta e saio à procura do mascarado. O encontro lutando com meu filho, que tinha conseguido se livrar das correntes, mas seria executado pelo seqüestrador.
Chutei o desgraçado para o canto e usei a motosserra para acabar com a raça do sujeito. Os azulejos do banheiro foram manchados de vermelho por uma chuva de sangue e deixei o bandido em pedaços, para depois sair abraçado com meu filho.
E chega.
Não quis mais olhar para aquele bizarro talismã, e nem quero que alguém o descubra.
Por isso, estou fazendo como fez Ulisses: enterro essa jóia, junto com meu relato de como a conheci. Não quero saber mais nada sobre meu futuro. Se algum dia alguém desenterrar esta cápsula, vai saber em que época ela foi usada e poderá fazer um uso melhor do que eu faria hoje.
Não sei se o mundo será devastado pela natureza enquanto eu ainda estiver vivendo. Também não sei se tudo o que vi se projetar diante dos meus olhos vai acontecer realmente. É claro que tomarei precauções para que essa história horrível de seqüestro não aconteça. Só sei que ninguém deveria saber como será o dia de amanhã. A minha época não está preparada para conviver com tal poder.
O material desta cápsula que estou enterrando hoje, no dia 06 de outubro de 2005, é muito mais resistente do que as velhas latas ou garrafas de água. Também estou tomando o cuidado de depositá-la bem fundo no solo, de modo que nenhuma criança venha a desenterrá-la em pouco tempo.
Não sei se Ulisses realmente teve o fim que previu no amuleto, mas eu não quis saber como seria a minha morte.
Espero sinceramente que quando essa cápsula for aberta, o mundo esteja em ordem, em paz e habitado por seres que o mereçam.
Luiz Fenando Riesemberg
A BELA DE PRATA
«juramos que fomos testemunhas da materialização de um fantasma, que apareceu diante de nós e nos acompanhou durante 20 minutos; depois o seu corpo desvaneceu-se diante dos nossos olhos!»
Esta afirmação foi feita às autoridades do lugar por um grupo de 80 pessoas que em 1953 assistiu ao congresso de verão Camp Silver Belle, na localidade de Ephrata, na Pensilvânia. Efectuou-se ali uma convenção espírita na qual participaram conhecidos médiuns de faculdades para físicas, capazes de produzir manifestações ectoplasmáticos, que quiserem dar testemunho deste facto fantástico.
Numa das sessões experimentais mostraram-se as capacidades da médium Ethel Post-Parrish, perante um grupo numeroso de pessoas. A sensitiva estava isolada dentro de uma cabina, e depois de evocar o seu espírito guia, entrou em transe auto mediúnico. Decorrido alguns minutos, conseguiu produzir, numa sessão de mais meia hora e a partir do seu corpo, a materialização de uma substância energética bio plasmática que, lentamente, a partir do solo da cabine, se foi projectando para o exterior, onde se formou a imagem de uma fantasmogéneses ectoplasmática com figura de mulher.
Denominaram-na «a bela de prata», pela semelhança da sua cor com este metal. Uma vez configurada, a entidade energética tinha a capacidade de se deslocar suavemente, como se flutuasse.
As testemunhas mais usadas puderam aproximar-se dela, tocar-lhe e inclusive passar-lhe os braços pelos ombros semimateriais.
Essa aparição pôde ser fotografada pelo profissional Jack Edward com um equipamento de infravermelhos.
Estes documentos, publicados neste artigo, são considerados os mais excepcionais da história da parapsicologia.
DIRETRIZ 1 <<>> Considerando que o direito de cada espécie consciente de viver de acordo com a sua evolução cultural normal é sagrado, nenhum membro da Frota Estelar pode interferir com o desenvolvimento normal e saudável da vida e da cultura de uma espécie alienígena. Essa interferência inclui a introdução de conhecimentos, força ou tecnologia superiores num mundo cujo a sociedade é ainda incapaz de lidar com essas vantagens sabiamente. Os membros da Frota Estelar não podem violar esta Primeira Diretriz, mesmo para salvar as suas vidas e/ou a sua nave, a não ser que eles estejam a corrigir uma anterior violação ou contaminação desta diretriz. Esta diretriz têm precedência sobre todas as outras considerações, e carrega consigo a maior obrigação moral.
DIRETRIZ 2 <<>> Nenhum membro da Frota Estelar recorrerá sem razão ao uso da força, quer seja coletivamente ou individualmente, contra membros da Federação Unida dos Planetas, seus representantes autorizados, porta-vozes ou líderes designados, ou membros de qualquer espécie consciente que não faça parte da Federação Unida dos Planetas.
DIRETRIZ 3 <<>> A soberania de cada membro da Federação Unida dos Planetas deve ser respeitada em todos os aspectos, os membros da Frota Estelar deve respeitar todos os estatutos, leis, ordens e regras de governarão correntemente em uso dentro da jurisdição do planeta membro. Os infratores serão sujeitos a punições ou correções determinadas pelos corpos governamentais locais.
DIRETRIZ 4 <<>> Se se realizar um contacto com uma espécie inteligente desconhecida, sob nenhuma circunstância devem os membros da Frota Estelar, quer seja por palavras ou por atos, informar essa respectiva espécie que outros mundos que não sejam os deles ou espécies que não sejam a deles, existem para além dos limites do seu espaço.
DIRETRIZ 5 <<>> Em casos de emergência extrema, os representantes especiais da Federação Unida dos Planetas estão autorizados a assumir poderes de emergência para lidarem com uma condição ou circunstância que é designada perigosa para o bem estar dos cidadões da Federação Unida dos Planetas. Dentro do âmbito destes poderes de emergência, pessoal civil, devidamente autorizado, pode assumir um comando temporário de uma nave da Frota Estelar e/ou de pessoal da Frota Estelar. O pessoal da Frota Estelar têm que se submeter à sua autoridade enquanto a crise durar.
DIRETRIZ 6 <<>> O pedido de assistência de emergência por parte de cidadões da Federação de Planetas Unidos exige uma prioridade incondicional dos membros da Frota Estelar, os quais deverão responder imediatamente a esse pedido, adiando todas as outras atividades.
DIRETRIZ 7 <<>> Nenhuma nave da Frota Estelar deve visitar o planeta Talos IV sob qualquer circunstância, emergências ou de outro tipo. Esta ordem sobrepõe-se à DIRETRIZ 6. Qualquer transgressão a esta DIRETRIZ é punida com a morte.
DIRETRIZ 8 <<>> Após avistar uma nave de guerra dentro do espaço da Federação Unida dos Planetas e identificando-a como pertencente a uma potência estrangeira, o capitão de uma nave da Frota Estelar deve determinar a(s) razão(ões) para a presença dessa dentro do território. Se houverem provas conclusivas que indiquem que a nave têm intenções hostis, a nave da Federação Unida dos Planetas pode tomar uma ação mais apropriada para salvaguardar as vidas e a propriedade dos membros da Federação Unida dos Planetas. Nestes casos, o capitão pode decidir se recorre ou não ao uso da força para danificar a nave hostil. Contudo, deve-se ter cuidado para evitar as perdas desnecessárias de vida consciente.
DIRETRIZ 9 <<>> Nenhum capitão de uma nave da Frota Estelar, militar ou auxiliar, pode conceder asilo político a qualquer indivíduo sem que primeiro tenha autorização expressa de um representante do governo da Federação Unida dos Planetas.
DIRETRIZ 10 <<>> Se existir um testemunho ou prova similar verificável por parte de oficiais seniores de que um indivíduo tenha violado a Primeira diretriz, tal indivíduo deve ser dispensado imediatamente do serviço por um representante da Federação dos Planetas e ser colocado na prisão. O representante da Federação Unida dos Planetas deve então tomar as iniciativas que ele ache necessário para minimizar os efeitos da violação da Primeira Diretriz.
DIRETRIZ 11 <<>> Oficiais da Frota Estelar com a patente de capitão ou superior estão autorizados a negociar as condições de um acordo e/ou tratados com os representantes legais de planetas que não pertençam à Federação Unida dos Planetas. Em tais circunstâncias, o oficial de comando têm os poderes de um Embaixador Especial da Federação Unida dos Planetas. Todo e qualquer acordo conseguidos desta maneira estão sujeitos à aprovação pelo Chefe de Operações da Frota Estelar e pelo Secretário da Frota Estelar.
DIRETRIZ 12 <<>> Os oficiais da Frota Estelar podem violar as Zonas Neutras designadas por tratado, somente se tal ação for necessária para salvar as vidas dos cidadões da Federação Unida dos Planetas sob condições de grande emergência.
DIRETRIZ 13 <<>> Excetuando ordens em contrário, os membros da Frota Estelar deverão respeitar a integridade territorial de governos e sistemas planetários independentes, e não violarão o espaço territorial pertencente a esses mundos.
DIRETRIZ 14 <<>> Os membros da Frota Estelar podem intervir em assuntos planetários locais de modo a restaurarem a ordem geral e proteger as vidas e propriedades dos membros da Federação Unida dos Planetas, mas somente após receberem uma ordem direta do oficial civil com o título de governador ou mais graduado.
DIRETRIZ 15 <<>> Nenhum oficial com a patente de comando deverá viajar para uma zona potencialmente perigosa sem uma escolta armada.
DIRETRIZ 16 <<>> Os membros da Frota Estelar podem conceder assistência tecnológica, médica, ou científica a membros de uma espécie previamente desconhecida, mas de modo a que tal assistência não viole a Primeira diretriz ou ponha em causa a segurança da Frota Estelar ou da Federação Unida dos Planetas.
DIRETRIZ 17 <<>> Os capitães das naves da Frota Estelar deverão considerar sagradas as vidas dos seus tripulantes. Em qualquer situação potencialmente hostil, o capitão colocará as vidas da sua tripulação acima do destino da sua nave.
DIRETRIZ 18 <<>> Após ter sido acusado de traição contra a Federação Unida dos Planetas, o pessoal da Frota Estelar pode exigir um julgamento conduzido pelos órgãos judiciários da Federação Unida dos Planetas. Se o indivíduo for absolvido, o Comando da Frota Estelar não terá mais recursos legais contra o acusado nesta matéria.
DIRETRIZ 19 <<>> excetuando em tempos de emergência declarada, os membros da Frota Estelar não podem em nenhuma circunstância, transportar material ou pessoal entre planetas ou sistemas planetários onde há razões para se crer que serão usados para cometer agressões. Esta ordem também aplica-se a planetas independentes dentro do espaço da Federação Unida dos Planetas
DIRETRIZ 20 <<>> Os oficiais do Comando da Frota Estelar podem empregar quaisquer meios para impedir a posse, o transporte, a venda ou a troca comercial de seres conscientes contra os seus desejos, dentro do espaço da Federação Unida dos Planetas.
DIRETRIZ 21 <<>> Nenhum membro da Frota Estelar pode oferecer os seus serviços a um governo estrangeiro independente sem autorização expressa da Assembléia da Federação.
DIRETRIZ 22 <<>> Considerando que o direito da livre expressão e o direito do livre discurso são sagrados, os membros da Frota Estelar podem debater privadamente as políticas e decisões dos seus representantes governamentais em qualquer altura, até ao limite de que tais discussões não violem os seus juramentos de comando ou as tarefas específicas contidas nestas Ordens Gerais ou no Regulamento da Frota Estelar .
DIRETRIZ 23 <<>> Quando forem apresentadas provas verificáveis de que um representante da Federação Unida dos Planetas esteja a atuar ou já tenha atuado de modo a violar a Primeira diretriz, os oficiais da Frota Estelar podem substituir no cargo esse mesmo representante até que seja realizada uma investigação pelos oficiais do governo.
DIRETRIZ 24 <<>> Se um oficial no comando verificar que um grupo de indivíduos representam uma ameaça aos membros da Frota Estelar ou aos cidadões da Federação Unida dos Planetas, esse oficial pode tomar as medidas necessárias (incluindo a força) de modo a garantir a segurança daqueles ameaçados.
DIRETRIZ 25 <<>> O pessoal militar ou civil que esteja na custódia dos membros da Frota Estelar durante situações de grande emergência deverão receber o tratamento consistente com a sua patente ou estado, mas de modo a que tal tratamento não comprometa a segurança da Federação Unida dos Planetas ou da Frota Estelar.
DIRETRIZ 26 <<>> Nenhum membro de uma tripulação de uma nave ou de uma instalação terrestre pode ser diretamente responsabilizado pelas ações dos seus superiores. De igual modo, nenhum membro de uma tripulação ou pessoal da Frota Estelar sofrerá as conseqüências das medidas disciplinares tomadas contras o(s) oficial(ais) de comando, se tal indivíduo não estiveram envolvidos nas ações que levaram às medidas disciplinares. Esta ordem estende-se às condições que envolvem as violações provadas da Primeira Diretriz, quando prova de tal exista.
DIRETRIZ 27 <<>> Nenhum membro da Frota Estelar pode ser obrigado a separar-se da família durante uma grande extensão de tempo, se tal separação for causada pelo cumprimento das suas tarefas e responsabilidades normais e se a sua família estiver a viver na mesma nave ou instalação que o respectivo membro.
DIRETRIZ 28 <<>> Nenhum oficial de patente de comando pode ser removido do comando sem que tal ação tenha o acordo completo de pelo menos três oficiais seniores presentes. Sempre que seja possível, tais oficiais devem incluir o Oficial Executivo, o Oficial Médico Chefe, e um oficial júnior da estação de comando.
DIRETRIZ 29 <<>> A maior responsabilidade de qualquer capitão de uma nave ou instalação da Frota Estelar é o bem-estar e segurança da sua tripulação, incluindo os membros civis. Não deve ser tomada nenhuma ação que possa originar uma ameaça indesejada para os indivíduos sob responsabilidade do oficial, excetuando no cumprimento do dever e quando seja inevitável.
DIRETRIZ 30 <<>> O Comando da Frota Estelar reconhece o direito da cada capitão de uma nave da Frota Estelar de interpretar a Primeira diretriz do modo que achar mais adequado, de modo consistente com as condições das outra ordens gerais existentes, e baseadas em circunstâncias que possam ocorrer durante o contacto com raças conscientes recém-descobertas.
DIRETRIZ 31 <<>> As condições e especificações da Primeira diretriz dever ser aplicada a todas as formas de vida consciente descobertas, quer sejam de origem natural ou artificial.
DIRETRIZ 32 <<>> Exceto nos casos de extrema emergência, nenhum capitão da Frota Estelar pode ordenar que a sua nave viaje a velocidades superiores a Warp 6 sem autorização expressa do Comando da Frota Estelar.
O Primeiro Amor
É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.
O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor.
Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.
Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.
Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana - desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.
Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».
Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.
Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.
Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas (1988)
Existem medos que temos e não confessamos, em detrimento de outros que confessamos e não possuímos.
Servem os segundos para ocultar os primeiros, com o simples intuito de nos enganarmos, fugindo ou tentando sómente esconder uma realidade que fingimos não viver, de modo a que se torne menos dificil o facto de carregarmos com o peso de uma existência que aos poucos se foi revelando demasiado pesada nós.
Se acaso possuo algo que tu desejas, então toma-o espontâneamente de mim.
Ceder-te-ei o que de melhor almejares possuir , sendo que em troca tomarei de ti algo que deseje.
Ficaremos ambos com a certeza de havermos conseguido o que desejámos.
Jamais seremos diferentes dos outros, tendo sómente por base,
- a crença que professamos,
- a educação que nos foi dada,
- o dinheiro que possuímos,
- o estatuto social que julgamos ou desejamos possuir,
- ou a nossa roda de amigos,
mas tão simplesmente pelo testemunho que damos.
Será ele que nos dará o real retorno e dimensão de tudo aquilo que somos.
Luis Castanheta
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